Friday, February 19, 2010

Ulula para lá, ulula para cá...

Vida e obra se entrelaçam. Ler Alberto Manguel é compreender que o fluxo de suas palavras percorrem vias por ele vividas também....
Afinal, como nos definimos? Pela nacionalidade? Pela língua? Pelo sangue?
Acho que sou uma ameba ululante no ínfimo do meu umbigo fundo...
Mas todo lar é um lugar imaginário. Temos lembranças de nossa infância, de um cheiro vago que permeia somente nossa memória....

“… Vivemos num mundo de fronteiras e identidades fluidas. Os fluxos vagarosos de migração e conquista que definiram o aspecto da terra por milhares de anos aceleraram-se cem vezes nas últimas décadas, a tal ponto que, como num filme projetado em velocidade rápida, nada nem ninguém parecem se fixar por muito tempo num mesmo lugar. Ligados a certo espaço pelo nascimento, por laços de sangue, afeições cultivadas ou necessidades adquiridas, deixamos para trás ou somos forçados a deixar para trás esses laços e partir para outros vínculos e lealdades, que, por sua vez, também entrarão em movimento, aproximando-se ou distanciando-se de um centro imaginário. Esses movimentos causam angústia individual e coletiva. Individualmente, porque nossa identidade se altera com o deslocamento. Deixamos nossos lares à força ou de livre e espontânea vontade, como exilados ou refugiados, ou emigrantes, ou viajantes, ameaçados e perseguidos em nossa terra natal, ou simplesmente atraídos por outras paisagens e civilizações. Socialmente, porque, mesmo se ficarmos, veremos nosso lar se transformar. A chegada de novas culturas, os estragos da guerra e da indústria, as divisões políticas e os reagrupamentos étnicos, as estratégias das empresas multinacionais e do comércio global, tudo torna difícil o apego prolongado a uma definição compartilhada de nacionalidade. Se nunca foi fácil responder à questão terrível que a Lagarta faz a Alice no País das Maravilhas, no universo caleidoscópico de hoje ela se tornou tão precária que quase soa absurda: “Quem é você?” Cidade das Palavras p.128

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